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O olhar de quem lembra

Por Renata Alves

Renata
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Publicado em 29 de julho de 2026 Atualizado em 29 de julho de 2026
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O encontro com Thiago aconteceu em uma festa, em uma cidade bem pequena.

Ele, sozinho, a observava de longe.

Ela, esperta e já atenta, começou a sorrir mais e a dançar mais...

Ele se aproximou.

E como era divertido, leve. Depois de muitas horas de conversa, aconteceu o beijo.

E deu química, viu?!

Depois disso, começaram a se falar, a se encontrar e a ensaiar um namoro.

Precisamos falar sobre esse ensaio, porque depois entenderemos o porquê dele.

Thiago era um cara do bem. Inteligente, bonito, tinha um emprego estável. O típico cara bacana que toda mulher gostaria de namorar.

Mas, como esse ensaio trata-se de uma história real, o príncipe Thiago não tinha somente qualidades, como todo ser humano.

Esqueci de dizer antes que ele havia se separado da ex-esposa há pouco tempo.

E ainda estava apaixonado — talvez eu possa usar a palavra obcecado — por ela.

Traduzindo: um belo “estou indisponível emocionalmente”.

A Renata também não estava em busca de uma história de príncipe encantado.

Ela estava reorganizando a vida para retornar à cidade de destino, que era Catalão.

Na sua última noite, ele a convida para jantar e avisa: — Vamos encontrar um amigo.

Com seu visual casual e lindo, ela solta os cabelos e acredita que será uma noite boa, sem grandes surpresas.

Sentamo-nos e, de repente, Marcelo se aproxima e o cumprimenta.

Logo em seguida, aproxima-se de mim, e um leve beijo no rosto e um meio abraço acontecem entre nós.

Foi o suficiente para despertar algo...

Ao perceber a forma como ele se expressava, fiquei ainda mais atordoada.

E isso me fez sussurrar a Deus: “Por que não ele e sim o Thiago?”

Com essa pergunta, termino essa noite.

Me despedi do Thiago sem muito sentimentalismo, já que essa não era uma história de amor, mas sim um breve encontro entre dois feridos e indisponíveis.

Anos, muitos anos se passaram, e por ironia do destino eu volto a morar nessa mesma cidade do evento que falei acima.

Depois de um ano e meio aqui, eu o encontro.

Percebo que não é o mesmo Marcelo de antes, mas também, como seria?

Envelhecemos, e existe beleza nisso também.

Eu disse: — Acho que te conheço, mas não me lembro de onde.

Qual seu nome?

Eu já sabia.

Tinha certeza de que era ele, mas queria ouvir sua voz.

Relembrar a pronúncia paranaense que eu guardava tão bem na memória.

Naquele momento, eu o olhei com atenção.

E, na verdade, ele nem mudou tanto assim.

Esperei meu marmitex ficar pronto e dei um tempo, como se realmente quisesse recordar de onde o conhecia.

Ao sair, paro diante dele, que estava comendo, e lanço: — Me lembrei.

Há muitos anos eu namorei um amigo seu, o Thiago. Lembra?

Ele disse: — Ah, sim. Thiagão.

E antes que desse tempo de ele dizer qualquer outra coisa, eu completei: — É isso então. Foi um prazer revê-lo, Marcelo.

Ah, eu sou a Renata.

E tremendo toda, mas andando confiante da mulher linda que sou (risos), fui para o carro e saí.

Percebi que ele me acompanhou com o olhar, e isso foi muito bom. Sério.

Depois disso, vamos virar Sherlock Holmes e investigar o que é possível.

Pergunto a uma amiga que treina comigo se ela o conhece.

Ela diz que sim.

Conta que ele está solteiro, porém, todavia, entretanto, contudo... é alguém muito low profile.

Leia-se: farrista e mulherengo.

Mas, de acordo com fontes confiáveis — suas amigas — ele é muito bom de cama.

Essa última informação não fez diferença alguma para mim.

Sou romântica demais para me atentar a uma avaliação sobre se alguém é bom de cama ou não.

Mas o tal low profile me entristeceu.

Nesse momento, lembro-me de Sartre, quando diz que “o inferno são os outros”.

Porque as pessoas ajudam a construir a imagem que temos diante do mundo, e não que isso seja uma verdade absoluta.

Mas, quando se trata da nossa própria essência, fica um pouco complicado simplesmente duvidar.

Achou que desisti da investigação?

Claro que não!

Na nossa conversa, ela me disse que ele era proprietário de uma loja de acessórios ou itens para carros.

Passei uma vez pela avenida, vi seu carro e pronto: descobri qual era a loja.

Fui ao Google, descobri os serviços e me lembrei de que já estava passando da hora de trocar o óleo do meu carro. Hahahaha.

Ao chegar à porta, percebo que ele não está, o que me deixa mais confiante.

Entro assim mesmo para conhecer o território do alvo em questão.

Seu funcionário, Marcos, super gente boa e marketeiro, me passou o orçamento e ficamos trocando informações sobre marketing digital.

E, de repente, vejo um ser iluminado e lindo adentrando a loja.

Minha mão fica gelada, as pernas tremem novamente, mas continuo ali, fingindo tranquilidade enquanto Marcos falava.

O alvo (leia-se Marcelo) passa atrás de mim dizendo que havia esquecido sua mochila.

Achei que ele pegaria e sairia, mas, ao me olhar, ele volta para o balcão e fica de frente para mim.

Por um breve segundo, eu me alegro com a possibilidade de olhar para ele de perto e encontrar seus olhos.

Mas ele acaba com a minha alegria ao colocar seus óculos de sol.

Pergunto a vocês, caros leitores invisíveis: Será que Marcelo também se interessou por mim?

Ou foi minha vontade real de que isso acontecesse que fez com que eu interpretasse dessa forma?

Outra coisa: será que ele colocou os óculos para me olhar sem ser percebido ou simplesmente porque precisava enxergar melhor?

Nunca saberemos...

Acredito que o meu Marcelo permanece como aquele de anos atrás.

Bem articulado, com bom repertório e lindo.

O Marcelo de hoje permanece interessante e misterioso.

Já a Renata...

Bem, essa mudou.

Mesmo investigando, ela só queria sentir um pouco mais daquele Marcelo que ela criou anos atrás.

E, sem tristeza ou frustração, percebe que foi ela quem o criou.

Para ele, talvez ela nunca tenha existido.

Mas pra ela, ele nem precisava ser real!

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